Guia de Leitura | “O fim do poder”, de Moisés Naím

Este GUIA DE LEITURA pretende facilitar o entendimento do livro “O fim do poder”, de Moisés Naím. Naím nasceu em 1952, é economista e já foi ministro de Estado na Venezuela, além Diretor-Executivo do Banco Mundial. Entretanto, notabilizou-se como escritor e colunista, além de, a partir de 1996, ser o editor-chefe da famosa revista Foreign Policy. Seus escritos de política e economia internacionais, política externa americana e as consequências da globalização são bastante elogiados pelos especialistas nestes temas e agora o autor possui  um canal no YouTube, o “Efecto Naím“. Autor de best-sellers, como “Ilícito“, que ganhou o prêmio de melhor livro de 2005 pelo The Washington Post e foi traduzido para 18 idiomas, em 2013 ele publicou “O fim do poder”, que adquiriu sucesso imediato pela crítica. 

Este GUIA está dividido em três partes. Na primeira parte vou me dedicar a explicar a concepção e as formas de exercer o poder, além de mostrar o porquê, segundo o autor, o poder ficou grande; numa segunda parte vou mostrar que hoje o poder ainda é grande, mas o seu exercício é cada vez mais contestado por atores que, juntos, exigem a sua dispersão, e isso por causa de três revoluções (do MAIS, da MOBILIDADE e da MENTALIDADE); por fim, na terceira parte vou refletir sobre as consequências positivas e negativas da dispersão do poder, além de tecer leves críticas às soluções que o autor adota para resolver os problemas tratados no livro.

Preparados? Vamos nessa.

PARTE 1

Para Naím (2013, p. 35-36), “Poder é a capacidade de dirigir ou evitar ações atuais ou futuras de outros grupos e indivíduos” ou, o que dá no mesmo, “poder é aquilo que exercemos sobre os outros para que tenham condutas que, de outro modo, não adotariam”. Já vemos aqui uma matriz weberiana na sua análise, segundo o qual o poder é uma espécie de força bruta que, no entanto, aparece disfarçado de um “mar de rosas” por uma série de dispositivos políticos. São esses dispositivos que o autor se propõe a descrever para mostrar que, a despeito do poder ser uno, existem formas diversas de exercê-lo. Todas elas são “tipos ideais”, pois na realidade para se manter o poder sempre há uma mistura entre elas, e não aplicação isolada de cada uma. O autor enumera quatro delas:

FORÇA

A força seria o modo mais físico e extremo de expressar o poder, que pode ser visto quando uma autoridade policial efetua uma prisão ou quando o Estado detém um recurso essencial e pode oferecê-lo ou negá-lo. Em A política como vocação, Weber elaborou uma definição de Estado que se tornou um clássico do pensamento político ocidental. O Estado, segundo Weber, possui o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território. A força, portanto, é a primeira, mais importante e mais utilizada forma de usar o poder.

CÓDIGO

O código seria o poder advindo da moral, da tradição, das práticas sociais, das crenças religiosas etc. que condicionam o comportamento das pessoas sem utilizar, porém, a coerção. Assim, respeitar os “Dez Mandamentos” ou fazer “voto de pobreza” são códigos que, a despeito de serem respeitados sem coerção física, condicionam moralmente as pessoas a seguirem comportamentos que neles estão prescritos. O código, portanto, é complementar à coerção no controle das pessoas. Bourdieu chamaria o “código” de poder simbólico.

MENSAGEM

A mensagem não requer nem força física nem código moral. O seu poder está na capacidade de persuadir os outros a verem a situação de uma maneira tal que se sintam motivados a promover os objetivos ou interesses do persuasor. Assim é que as grandes empresas ou os marqueteiros de campanhas políticas conseguem, a partir de uma série de técnicas muito bem construídas e embasadas cientificamente, fazer com que os receptores da mensagem adiram ao seu conteúdo. Um marxista poderia muito bem chamar isso de ideologia.

RECOMPENSA

A recompensa é também uma forma de exercer o poder na medida em que, como bem sabem os economistas, quem possui a capacidade de oferecer prêmios (incentivos) possui uma enorme vantagem quando o assunto é fazer com que pessoas ajam de acordo com os seus interesses. Posso citar os diversos países que os Estados Unidos financiam em armas para que eles defendam em suas regiões os interesses americanos ou quando empresas financiam campanhas políticas para que os políticos criem leis que melhorem os seus setores de atuação.

Porém, para entender a dinâmica em torno da pulverização do poder, é preciso entender como o poder se torno aquilo que hoje ele é. No século XIX havia a ideia de que quem queria exercer o poder precisaria, antes de tudo, ser grande. Weber, quando criou a definição do Estado Moderno ao dizer que ele, o Estado, detinha o uso legítimo da força, sustentou que isso seria possível de realizar através de um conjunto de instituições hierárquicas e especializadas, que ele chamou de burocracia. E isso não se restringiu ao poder público. O fenômeno que se verificou na iniciativa privada foi que as empresas, antes locais ou no máximo nacionais, passaram a dominar o mundo com filiais em cada canto do globo. Para exercer esse domínio, além de possuírem forte hierarquia, passaram a adotar uma série de mecanismos administrativos (como relatórios, manuais, normas internas, comitês, setores etc.) e normas que se aplicariam a todos independentemente do status que o indivíduo possuía dentro da organização. Isto porque, diz o autor (idem, p. 68),

“não basta controlar grandes recursos como dinheiro, armas ou seguidores. Tais recursos são uma precondição necessária do poder; mas, sem uma maneira eficaz de administrá-los, o poder que eles criam é menos eficaz, mais transitório, ou ambas as coisas. A mensagem central de Weber era que, sem uma organização confiável e competente, ou, para usar seu termo, sem uma burocracia, era impossível exercer verdadeiramente o poder”.

A tese do livro é que se, por um lado, as riquezas e o poder tendem a se concentrar cada vez mais nas sociedades capitalistas modernas, e, para isso, a burocracia cumpre um papel essencial, atualmente os que detêm poder podem fazer cada vez menos com ele. Isto porque, sustenta o livro, há muitos outros que também detém parcela de poder e, assim, limitam o âmbito de ação dos atores tradicionais de uma forma nunca antes vista, o que nos leva à parte 2.

PARTE 2

Para explicar esse mundo novo, Naím (2013, p. 15) parte de uma constatação muito acertada: os grandes atores tradicionais (governos, exércitos, empresas, sindicatos etc.) estão cada vez mais contestados por atores menores em tamanho e recurso, que também detêm certo poder. De fato, as grandes instituições sofrem hoje uma série de imposições por parte de ONG’s, jornalistas investigativos, ativistas e até celebridades, que possuem uma enorme capacidade de mobilização em torno das suas causas.

Apesar desta dispersão do poder ser vista com muita clareza ao olharmos para os atores não tradicionais – como, por exemplo, o poder de uma celebridade como Angelina Jolie na hora de arrecadar fundos para crianças da África ou a própria eleição de Donald Trump – quero me focar em um aspecto de dentro da política profissional, que é a mudança do papel dos “partidos nanicos”.

Se antigamente o papel dos nanicos era só incomodar com palavras de ordem e gritar por uma revolução que nunca chegou, agora, num presidencialismo de coalizão, ter ele ao seu lado ou não pode definir a implantação de uma série de políticas. Isto porque, diante de um quadro eleitoral multipartidário, formar uma maioria nem sempre é fácil e, assim, qualquer apoio é muito bem-vindo. Basta ver a inúmera quantidade de projetos de lei ou emendas constitucionais que são aprovadas ou não por cinco ou seis votos, como também as próprias eleições que hoje operam num contexto onde não existem mais maiorias esmagadoras. Dilma (Brasil), Macri (Argentina) e Trump (Estados Unidos) ganharam por mínimas diferenças percentuais, assim como plebiscitos que decidiram a permanência da Escócia no Reino Unido, a saída do Reino Unido da União Europeia (brexit) ou a não aceitação do acordo do governo colombiano com as FARC’s tiveram pouca diferença percentual entre o sim e o não.

Mas não é só isso. Hoje, mais do que nunca, a política está sendo interditada por juízes cada vez mais atuantes, que fazem controle repressivo e algumas vezes preventivo (clique aqui) de políticas públicas e de leis, o que faz com que os políticos profissionais têm que vencer mais essa barreira que vem de profissionais que não raramente pouco sabem como funciona um governo ou sobre os meandros do jogo político.

Toda essa oposição, que, no jogo institucional, envolve partidos “nanicos” e juízes ativistas, e no plano da sociedade civil envolve de jornalistas investigativos até pessoas comuns (basta lembrar do jovem Tunisiano que ateou fogo no próprio corpo e desencadeou uma série de eventos que resultaram na queda do governante Zine El-Abidine Ben Ali ou do bispo da igreja católica que fez greve de fome e gerou uma enorme discussão sobre a transposição do Rio São Francisco), demonstra que o poder não é mais tão simples de ser exercido.

Agora, por que o poder tal qual o conhecíamos está perdendo força? Naím elabora uma tipologia explicativa e, segundo ele, a causa está em três revoluções, como você pode ver abaixo:

REVOLUÇÃO DO MAIS

Hoje temos tudo em abundância (partidos, países, pessoas, mas também serviços, remédios e computadores). Apesar do terrorismo e das catástrofes naturais, hoje as pessoas vivem mais e melhor que em 1970. A tese é que quando as pessoas vivem mais e melhor elas são mais difíceis de se sujeitar ao domínio e ao poder (idem, p. 91). A consequência é que o uso da coerção não funciona tão bem quanto antigamente e, por isso, é preciso criar outros métodos para manter o poder (idem, p. 92).

REVOLUÇÃO DA MOBILIDADE

Hoje as pessoas mudam de cidades e países com uma velocidade crescente e isto gera uma série de consequências: na política, os imigrantes podem decidir eleições (idem, p. 95); e na sociedade é possível alterar a indústria, a mídia e a qualidade de vida de uma população local. A partir da ideia de “circulação de cérebros”, os mais capazes saem dos seus países para estudarem em países de ponta e, com o tempo, retornam para os seus países para mudarem a realidade local (idem, p. 96). A conclusão é que quando a população governada (a ser controlada) é mais móvel fica mais difícil para as grandes organizações a manutenção do domínio, pois há alternativas a ele (idem, p. 99-100).

REVOLUÇÃO DA MENTALIDADE

A partir das revoluções do MAIS e da MOBILIDADE as pessoas descobriram que outras, em outros países, vivem em melhores condições e, a partir daí, passaram a reivindicar melhorias nos governos locais. Esse contato fomentou ceticismo e a desconfiança em relação a qualquer autoridade, implicando na ideia de que nenhuma distribuição de poder é definitiva (p. idem, p. 107).

Abaixo segue um infográfico que mostra as três revoluções (do mais, da mobilidade e da mentalidade) interagindo com as formas como o poder se manifesta (força, código, mensagem e recompensa).

infografico

É claro que a dispersão do poder também possui consequências positivas. Diz o autor (idem, p. 309-310):

“Sociedades mais livres, mais eleições e mais opções para quem vota, novas plataformas para organizar comunidades, mais ideias e possibilidades, mais investimentos e comércio e maior competição entre empresas e, portanto, mais opções para os consumidores”.

Só que, na sua opinião, as consequências negativas são ainda piores:

Vetocracia e Obstrucionismo. Embora a política sempre tenha sido a arte dos compromissos agora ela passou a ser a arte de impedir que os acordos sejam feitos. Isto porque o “obstrucionismo” e a “paralisação” são cada vez mais comuns nos sistemas políticos (idem, p. 305), como é exemplo, ainda que fora da política institucional, os movimentos sociais contemporâneos.

Partidos políticos e a perda do seu conhecimento institucional. O desaparecimento dos partidos políticos “implica a perda de importantes reservatórios de conhecimento muito especializado, que não é fácil de replicar pelos novos grupos políticos ou mesmo pelos carismáticos indivíduos recém-chegados que os substituem” (idem, p. 323).

Incapacidade dos micro atores desenvolverem um conhecimento à altura dos grandes. A dispersão do conhecimento e seus corifeus não possuem a capacidade de se igualar a um departamento de pesquisa (idem, p. 323). E a consequência pode ser desastrosa, pois “nossas escolhas pessoais sobre educação e emprego não são necessariamente melhores ou mais sustentáveis dentro de um ambiente onde o poder é difuso demais” (idem, p. 323-324).

Surgimento de atores criminosos. A política fragmentada possibilita o surgimento de piratas, terroristas, milícias, cartéis de crimes, fanáticos religiosos etc. (idem, p. 319), que exigem do Estado mais gastos públicos para combater ainda mais demandas.

Pois bem. O que está em jogo na degradação do poder? Segundo o autor, estamos diante de “um mundo no qual todos têm poder suficiente para impedir as iniciativas de todos os demais, mas ninguém tem poder para impor uma linha de atuação”, o que significa que “é um mundo no qual as decisões não são tomadas, ou são tomadas tarde demais ou se diluem no ponto da ineficácia” (idem, p. 38). Em outras palavras: apesar da fragmentação do poder dar grande força de obstrução a uma série de atores políticos, não confere a nenhum deles o poder de implantar políticas, o que termina por nos deixar em um beco sem saída.

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Bom, analisando criticamente o diagnóstico do autor, posso dizer que sim, estamos sim em um ambiente onde o poder está pulverizado e está mais difícil governar hoje do que em 1980. Porém, os grandes atores ainda possuem muito poder político e o poder econômico, caso Pikkety (2014) esteja certo, está cada vez mais concentrado. Isto significa que ainda somos dominados por um oligopólio que está longe de ser desfeito. O Brasil segue essa mesma tendência, pois as lideranças políticas são as mesmas há décadas, bem como aqueles que detém o poder econômico. Por aqui e no mundo, se a pulverização do poder propicia que tenhamos mais pessoas individuais dedicadas à filantropia e o surgimento dos chamados “influenciadores” (que os americanos chamam de web celebrities), isto ainda não modificou totalmente o jogo da política, como argumenta o autor.

Um outro ponto que eu queria destacar é a solução que o autor dá para resolver o problema da ineficiência do poder: dar mais poder para os atores tradicionais (idem, p. 334).

É óbvio que em democracias de baixa intensidade (SANTOS, 2016) e em que há uma enorme dificuldade em torno da participação popular, tudo o que não podemos fazer é dar ainda mais poder para os atores tradicionais. Muito pelo contrário, a ciência política caminha justamente no sentido que temos que cobrar accountability e controle sobre os seus atos.

É isso, meus amigos, apesar das críticas o livro é bom e merece ser lido.

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Referências

 

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Como citar este artigo:

BASTOS, Ronaldo. O fim do poder: Moisés Naím mostra quais são as três revoluções que mudaram a política mundial. InBlog Ronaldo Bastos – Direito, Estado e Imaginação Institucional. Disponível em: https://ronaldobastosjr.com.br/2016/12/20/o-fim-do-poder-moises-naim/. Publicado em: 20 dez. 2016. Acesso em: [citar a data].

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