Leandro Karnal e a sua paixão por uma política que não existe | Blog Ronaldo Bastos

Esta semana o historiador Leandro Karnal virou manchete. Não pelos inúmeros lugares-comuns que repete em suas palestras corporativas, mas por uma foto que ele mesmo postou em sua página do Facebook. Na foto, ele aparece ao lado do juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-jato, figura odiada pela esquerda brasileira, que o acusa de ser parcial, além de um dos artífices do golpe de 2016.

Muito se disse sobre esta foto e eu não quero ser mais a um a repetir os mesmos argumentos. Até porque nem concordo com todos eles. Só para deixar a minha opinião, jantaria (e janto) com inúmeras pessoas que tenho divergências ideológicas. Quando não consigo aprender nada (o que é difícil), ao menos consigo refinar os meus próprios argumentos.

O que eu quero tratar aqui é de um diálogo que Karnal teve com um dos seus seguidores e que me chamou muita atenção. Karnal, para se defender das críticas à foto, falou que não se interessava por política, fato que pegou de surpresa o seu seguidor, que o questionou logo em seguida. Karnal, então, emendou dizendo que não se interessava por política partidária, embora a política de Aristóteles o fascinava.

Uma afirmação desta é problemática em dois sentidos. Em primeiro lugar, a filosofia política normativa (como a que faz Aristóteles e muitos outros teóricos) é importante sim, mas possui um problema fundamental, que é realizar uma política pré-figurativa no plano teórico, isto é, partindo da ideia para chegar à prática, e não o contrário. Se a prática irrefletida tem os seus problemas, a teoria sem a prática também não é das melhores. É assim que a ideia leninista, segundo a qual uma classe revolucionária pressupõe uma teoria revolucionária, não é totalmente correta, na medida em que uma pode existir sem a outra ou, ao menos, as duas não são necessariamente contemporâneas.

Isto não quer dizer que eu seja contra os teóricos da democracia. Muito pelo contrário, acho eles fundamentais. O meu ponto é que se o que queremos é usar a teoria tanto para descrever situações passadas quanto para articular os movimentos sociais visando um mundo melhor, com menos capitalismo, colonialismo e patriarcado, a teoria e a prática têm que andar de mãos juntas e se alguma deve ter preponderância deve ser a prática, e não a teoria. Não acredito em teóricos vanguardistas ou em efeitos performáticos dos discursos sem nenhum respaldo da prática.

Por outro lado, um outro problema da afirmação de Karnal é a identificação que ele faz entre política “real” e política partidária, quando a política é muito maior que o sistema de eleições e de partidos. O liberalismo quer que aceitemos uma política de baixa intensidade que se resuma à legitimação dos representantes, nos moldes procedimentalistas de Schumpeter ou, mais modernamente, de Dahl, isto é, nos limites da democracia representativa.

A política é muito mais do que isso. Não podemos ignorar os vários mecanismos de democracia participativa que surgiram após a segunda guerra mundial, como o orçamento participativo, os conselhos populares, os mecanismos de democracia direta, as audiências públicas etc. Não podemos ignorar também que, para além das democracias representativa e participativa, temos a prática da democracia comunitária, como as que ocorrem nas comunidades tradicionais, no caso do Brasil entre os indígenas e quilombolas.

Na minha opinião, Leandro Karnal é apaixonado por uma política que não existe. E isso é um problema.

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2 Comentários


  1. Mas uma prática política tendo como material humano uma população absorta, alienada e sonhadora, não seria inócua, do ponto de vista prático?

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    1. Não acho não. Na verdade, costumamos olhar apenas a política no âmbito federal, mas, por exemplo, no plano municipal há muita atividade política que, de um modo geral, pode mudar o modo de fazer as coisas. Penso nas práticas de orçamento participativo, principalmente em Porto Alegre e Belo Horizonte; ou nas audiências públicas, que em nível local se mostram bem efetivas, a despeito de serem em grande medida clientelistas. Mas no próprio plano federal foram bem proveitosas as Conferências Nacionais de Políticas Públicas na área da saúde, que possuíram grande influência na definição das áreas prioritárias. E várias outras que eu desconheço. Afora isso, leis como a da violência doméstica contra a mulher, a de cotas ou do tratamento especial para pessoas com deficiência foram resultado de muita militância. É claro que hoje com esse governo e com esse parlamento ficamos desanimados e temos a sensação que não adianta fazer nada ou que nosso povo não tem educação política. Em certa medida concordo com vc, mas as conquistas políticas são lentas mesmo, principalmente em sociedades coloniais e patriarcais como a nossa. Abs.

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