Pequenos episódios expressam grandes problemas? Uma esperança de reflexão e debate | Blog Ronaldo Bastos

*por Manoel Uchôa.

Uma das retumbantes consequências das redes sociais consiste em permitir a repetição de eventos acompanhados das perspectivas das pessoas. Em geral, pessoas sem qualquer envolvimento direto com o evento transformam-no em um debate público. Contudo, o expediente não assume as condições que orientam uma discussão pública.

Há um falatório geral conduzido pela própria contingência e superficialidade das redes sociais. Ao passo que o evento é transitório, o debate permanece supérfluo. Preenche-se uma lacuna na forma de mediar as opiniões e informações considerando mais as palavras de ordem que um processo de transformação das condições de existência que fizeram o evento emergir na percepção social. Trocando em miúdos, fala-se muito com a ilusão de questionar o problema, porém se propõe pouco ou nada para compreender suas causas e ventilar sua resolução.

A ironia é que se busca uma solução, mas se evita o debate na medida em que ele pode cair em pressupostos mais abstratos, logo, mais impertinentes. Demanda-se um debate público na mesma velocidade em que um meme se degrada na superfície da timeline do Facebook. Não se retém a relevância pública. O que resta é uma explosão de frustrações, proselitismos e juízos. Ninguém está livre disso. Contudo, é necessário provocar uma indagação para sabermos distinguir o elemento público do debate para a mediação e decisão dos problemas. Em contraponto, seleciona-se as ilações mais perversas.

O episódio vinculado a recomendação do uso de roupas adequadas aos pais por um tradicional colégio recifense revela um desses pequenos momentos em que um problema bem maior nos implica. Fica evidente um problema mais radical que moralismo e hipocrisia. Na verdade, há um moralismo e hipocrisia mais profundo no modo como colégio, pais, alunos, ex-alunos e cidadãos em geral, processam o evento. Não é a primeira vez que algo similar ocorre (vide casos de racismo, bullying, etc.). Persiste um misticismo perverso sobre a abordagem da interdição feita pelo colégio frente a comunidade na qual ele pertence.

Em primeiro lugar, a abordagem do colégio revela mais que uma simples arbitrariedade. Ela pressupõe um apoio da comunidade nunca claro ou esclarecido. O que se pode constatar até o momento é que o pedido partiu de um grupo de mães em relação a vestimenta de uma mãe específica. Uma hipótese parece plausível: o colégio lança a recomendação aos pais de modo neutro para dissimular o conflito dentro da comunidade. A neutralização é a tática para nem se comprometer com o constrangimento de uma pessoa diretamente, nem ficar em maus lençóis com o pedido do grupo. O tiro saiu pela culatra. Não atingindo uma pessoa em específico, atingiram o comum.

Pessoas disseminaram a foto, a mensagem, a imagem do colégio acompanhadas de seus testemunhos e protestos e defesas. Claramente, a comunidade se divide para lidar com o problema. Entretanto, não há um processo de reconciliação a não ser legado ao silêncio e a mediocridade. Realmente é esperado que a poeira baixe e os panos quentes atuem em direção a mística do social. Não há um sentido democrático ou republicano nesse processo. Aí reside a tragédia.

Ao invés de ser um espaço de debate, o colégio advém um arquivo violento. Não se soluciona a questão para o bem ou para o mal, mas se sufoca o evento esperando que ele não retorne mais forte. Essa estratégia em geral leva a precarização e recrudescimento do problema. Por assim dizer: não discutir só leva a reprimir um trauma que ao retornar não será traduzido em palavras, mas em mais violência. Então, de que modo evitar essa tradicionalista opção das mais tradicionais instituições sociais?

A opção por fortalecer o caráter da comunidade em sua reconciliação parece abrir a ferida para limpar infecção. Uso propositalmente uma linguagem medicinal porque é de saber (melhor) viver que se trata. Aliás, são de corpos e seus usos que se trata o problema do colégio. A maneira mais “saudável” poderia ter sido chamar o Grupo incomodado para confrontar seu pedido frente a Pessoa de corpo exposto. Chamar a comunidade para debater o significado de “vestimenta adequada” para que a própria comunidade decida. Caso haja a determinação normativa para o uso da roupa adequada excluindo certas peças de vestuário, ao menos, fica claro e consensual para todos o motivo e a justificativa. Obviamente, há o risco de impossibilidade de consenso, porém o ministério público e judiciário existem para cuidar de tais impasses.

O que não pode nos iludir é a existência de resposta pronta e simples. Ainda mais, o debate não pode cair em uma ilusão extremamente perniciosa: o problema encontrar uma solução meramente pela via do consumo. O argumento “Não gostou, matricule em outra escola” é sintoma da pobreza nacional. Primeiro, porque educação é um problema público por concessão tanto quanto atentado ao pudor e adjacentes danos. Segundo, porque dinheiro é um mediador usual porém limitado às questões financeiras. A ação do colégio refere-se a moralidade pública e ao problema político de viver junto, em comunidade.

Não se trata de submeter a vontade individual a vontade coletiva. Trata-se, todavia e principalmente, de criar espaços de negociação acessíveis a todos individualmente e em geral. Nisso consiste a força de ideias como democracia e republicanismo. Essa é a força motriz, quase um motor imóvel, do que chamamos Constituição. Essa é a razão de falar em liberdade. Não é meramente um projeto, é um razão de viver em sociedade. Só se combate dos poderes autoritários vigentes através de poderes democráticos possíveis. O resto é armazém de secos e molhados.

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