Precisamos falar sobre o Curdistão (meu textão sobre a Venezuela) | Blog Ronaldo Bastos

*por Pablo Holmes. Doutor em Sociologia pela Universidade de Flensburg (Alemanha) e professor de ciência política da Universidade de Brasília. Texto publicado originalmente na sua página do Facebook.    

Nas últimas semanas, o presidente da república do Brasil foi gravado negociando o silêncio de um deputado, consentindo que juízes e procuradores fossem comprados, negociando vantagens para um empresário em troca de propina. O seu principal assessor foi preso pegando a propina negociada em uma mala preta contendo 500 mil reais.

Um senador e presidente de um dos principais partidos do governo, que tem 5 ministérios (alguns dos mais importantes), foi gravado negociando 2 milhões de reais em troca da nomeação do diretor de uma empresa. Em tom de blague, ele disse que mandaria matar o próprio primo, caso ele abrisse o bico sobre a grana. O primo foi preso com uma mala de dinheiro.

Algo aconteceu? Não. Aliás, houve um julgamento no TSE, em que o presidente da corte disse que algumas provas, que haviam sido incluídas anteriormente no processo, por ele mesmo aliás, não deviam mais ser consideradas. Pois haviam sido incluídas apenas quando seu objetivo era derrubar uma presidente eleita e, agora, elas não faziam mais sentido.

Esse mesmo juiz, membro da suprema corte, também foi gravado se comprometendo a cabalar votos junto a senadores com o senador que brincava sobre mandar matar.

Bem… Nada aconteceu. Aliás, sim. Claro. O governo da mala preta gastou, segundo diferentes estimativas, algo entre 4 e 10 bilhões de reais para garantir sua permanência, evitando qualquer processo, quantia que equivale mais ou menos a quase todo o orçamento de um ano investido em ciência e tecnologia pela União.

O senador “matador” permanece também no senado, na presidência do seu partido e continua sendo peca fundamental na articulação política do governo. O ministério continua composto pelos partidos que perderam as eleições. E o presidente da mala preta continua na presidência, como se nada houvesse acontecido.

Ao mesmo tempo, programas sociais são esvaziados. As universidades estão a ponto de fechar. Bolsas de pesquisa deixaram de ser pagas. Faltam remédios em postos de saúde. E o pequeno aumento no bolsa família, destinado aos mais miseráveis dos brasileiros, foi parcialmente suspenso.

Enquanto isso, o tema principal do noticiário passou a ser a… Venezuela. Todos que chamam a atenção para a situação de completa destruição institucional da nossa democracia, os que se opõem às oligarquias e bandidos que se apossaram do poder sem terem sido eleitos, são acusados de ser “condescendentes com a situação venezuelana”. E são cobrados a se posicionar sobre a venezuelana, como esse fosse o tema mais relevante da política nacional e mundial. Haja paciência.

A Venezuela é um vizinho importante do Brasil. Mas está longe de ser o principal parceiro comercial, cultural, econômico, político, esportivo, artístico, científico ou mesmo sexual do país (acho que esse posto continua a ser da argentina).

Eu pessoalmente nunca fui à Venezuela. Conheço poucos que foram. Não tenho (nem feliz nem infelizmente, já que não conheço bem o país) nem um grande amigo venezuelano. Aliás, acho que não tenho nenhum amigo que seja de lá. Devo conhecer superficialmente no máximo um punhado de venezuelanos que não dá os dedos de uma mão.

O que sei sobre a Venezuela me chega por meio dos jornais. E confesso que nunca foi o primeiro país por que procuro no noticiário. Pois para mim há outras regiões que, por razoes pessoais ou que julgo objetivas, são mesmo mais importantes. E agora sou cobrado constantemente sobre minha posição acerca da terrível situação venezuelana. Ora bolas…

Pois bem… Pra ser bem sincero, acho muito triste o que está acontecendo na Venezuela. Algo terrível parece acontecer, afinal. Mas tampouco consigo crer totalmente no que me chega por meio da imprensa. O que me foi dito por quem acompanha mais de perto a situação, seja de direita ou de esquerda, é que é muito difícil ter informações confiáveis sobre o país.

Mas, para continuar sendo sincero outra vez, não consigo me comover mais com a Venezuela do que com a situação, igualmente triste e talvez bem mais dramática, do Curdistão, por exemplo. Por que ninguém fala do Curdistão? Ninguém quer saber minha posição sobre o Curdistão. Ninguém berra sobre o Curdistão. Ora, em consequência da passividade das potencias mundiais, os curdos morrem e são brutalmente perseguidos na síria, no Iraque, na turquia e no ira. Há em alguns casos, evidente genocídio, com tracos de etnocídio. E ninguém se interessa pelo que ali acontece. Por que será?

Pensemos então em temas políticos, digamos, mais relevantes. Já que o Curdistão pode ser só uma loucura da minha cabeça. Afinal, grande parte dos brasileiros nem sabe onde fica o Curditão (Mas será que sabem mesmo onde fica a Venezuela?).

A China, por exemplo, é uma das mais importantes potencias do planeta, com peso comercial, político e social fundamental no mundo. Muito mais relevante para o brasil, por exemplo, do que a Venezuela (seja por seu peso econômico, seja por sua influencia geopolítica). Vi muitos malucos de internet exigindo que o governo brasileiro, norte-americano (viva Janaína!) se posicionassem contra a Venezuela, com sanções econômicas e políticas. Suspensão. Intervenção. Corte de relações. Mas, ora, não deveria valer para China o mesmo critério de que há ruptura democrática aplicado ao caso da Venezuela? Será que devemos mesmo tolerar um governo que assassina opositores, não permite a existência de partidos de oposicão, proíbe sindicatos e a imprensa livre, e limita até o acesso à internet de seus cidadãos (não ouvi que essas coisas foram feitas na Venezuela, aliás)? O Brasil não vai se posicionar? Não vai romper relacões comerciais? Não vai denunciar ao mundo?

(Nesse caso acho que vale claramente o princípio jurídico conhecido como “Princípio Gilmar Mendes”: casos iguais são tratados igualmente, mas só quando eu to a fim, porque vai favorecer os meus brothers e prejudicar meus inimigos).

Há ainda outros casos dramáticos. Que tampouco têm atenção. Confesso que para mim, pessoalmente, é muito mais triste a situação política na Turquia, país de que gosto, onde tenho grandes amigos (diferente do que ocorre com a Venezuela). A turquia me deixa bem mais triste do que a Venezuela, por exemplo. Mas ninguém se posiciona sobre a turquia? Nada a dizer sobre a Hungria? E a Rússia, que o presidente biônico do Brasil visitou recentemente? Não merece nenhuma reflexão? Nada sobre a dramática situação na polônia, outro país em que já fui diversas vezes (nunca fui na Venezuela), e que passa por franco processo de ruptura institucional? E a guerra na síria? Quantos estão a morrer na Síria? E a situação no Sudão, que continua dramática? E o aumento da miséria no sul dos Estados Unidos? A líbia? Todos esqueceram da Líbia!

Pois bem… Tudo isso para dizer que acho muito triste a situação na Venezuela. Acho um absurdo que o direito seja ignorado, que normas constitucionais sejam instrumentalizadas em favor de interesses políticos. Que tribunais ajam politicamente para favorecer um dos lados da disputa política.

Mas acho que é de uma ironia desonesta e cara de pau a histeria coletiva que surgiu na política brasileira sobre o tema venezuelano. Não é difícil perceber que isso tudo tem a ver apenas com uma coisa: o que foi feito no brasil, assim como esse governo corrupto, inaceitável, absurdo e ilegítimo, são coisas absolutamente indefensáveis.

A Venezuela virou um grito de torcida daqueles que apoiaram e/ou foram condescendentes com o golpeachment. Os defensores envergonhados do golpeachment, que diante da fraude que apoiaram, gritam agora “VENEZUELA”, deviam aproveitar o repentino interesse por política internacional e pela situacao da democracia no mundo para expandir seus horizontes.

O mundo está cheio de ditaduras deploráveis e crises institucionais. Algumas delas mais dramáticas e com mais consequências para nós do que a venezuelana (que é igualmente triste). E claro: no Brasil um governo inaceitável continua onde foi colocado. Sem ter nenhum voto.

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