Resenha | “A tolice da inteligência brasileira”, de Jessé Souza

O livro do sociólogo brasileiro Jessé Souza, que é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), intitulado “A tolice da inteligência brasileira (ou como o país se deixa manipular pela elite)”, causou muita polêmica, tanto na direita quanto na esquerda. O meu objetivo neste post é mostrar que não há razão para isso, pois se, por um lado, a maioria das suas teses é verdadeira, por outro elas não passam de truísmos há muito tempo consagrados na sociologia, alguns desde o século XIX. O seu grande mérito é ter sistematizado e organizado esses conhecimentos para o leitor não habituado com o debate das ciências sociais; já o seu demérito é passar ao leitor a impressão de que ele “inventou a roda”, isto é, criou as perspectivas e as interpretações que ele se utiliza neste livro. De um modo geral, penso que se, para os profissionais, o livro parece um panfleto (talvez essa seja uma expressão muito forte), para o público em geral ele pode ser crucial para se contrapor à ideologia dominante divulgada pela grande mídia e pelo conservadorismo brasileiro.

O livro possui pouco mais de 250 páginas e é dividido em quatro partes. A tese central do livro é que a ciência social brasileira, principalmente a nossa tradição ensaística (é contestável se essa “tradição” constitui ciência de fato), é pautada por um “liberalismo” ou “culturalismo conservador” (ele usa as duas expressões) que sustenta, em linhas gerais, que o MERCADO é eficiente e virtuoso enquanto o ESTADO é abjeto e corrupto. A consequência é que esta “violência simbólica” (Bourdieu) ajuda a manter o status quo da “elite econômica” brasileira e faz com que as classes sociais inferiores, enebriadas por este discurso, lutem politicamente pelos interesses desta “elite” sem se dar conta de que os interesses da “elite” são contrários aos seus próprios interesses.

Na minha opinião, a tese central do livro é correta e, nesse sentido, precisa ser divulgada aos quatro cantos do país. Isto porque as ideias não se consolidam socialmente apenas por sua exposição em livros acadêmicos. Se, conforme a pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil”, o brasileiro lê pouco, a quantidade de pessoas que se debruçam sobre livros acadêmicos é menor ainda. O “liberalismo conservador” só tem eficácia porque ele é ensinado nas escolas, martelado pela grande mídia e protegido, inclusive, por altos servidores públicos (!), que defendem a ineficiência do Estado mas não largam seus cargos públicos abastados em remuneração e reconhecimento social.

A tese do livro é correta, em primeiro lugar, porque o que mais se vê, inclusive nas nossas salas de aula, são alunos, que definitivamente não pertencem à “alta sociedade”, defenderem o desmantelamento do Estado mesmo que eles sejam os principais usuários dos serviços públicos. Um exemplo claro desse “tiro no pé” são os (privatizados) serviços de telefonia celular no Brasil, que apresentam as taxas de preços mais altas do mundo e são de péssima qualidade, sendo campeões de reclamação no PROCON. O mesmo pode ser dito sobre o mercado automotivo ou outros setores mais específicos, que atingem principalmente a chamada “classe média”.

Afora isso, muito além da crítica dos liberais ao tamanho do Estado (que é falsa), a verdade é que não existe fortuna feita no Brasil sem as benesses do poder público, já que não existe capitalismo sem Estado ou, em termos brasilianistas, não existe Eike Batista sem o BNDES… O problema é que, contra todos os fatos, a ideologia dominante defende que para ser rico basta ter vontade e disposição para trabalhar, como se muitos brasileiros não ficassem 10 a 12 horas envolvidos com a logística do trabalho, principalmente se contarmos o tempo de deslocamento nas grandes capitais brasileiras. Mas isso é outro assunto…

No livro, o autor se dedica à crítica à perspectiva do “liberalismo conservador” e da desconsideração dos “imperativos institucionais”, que pode ser encontrada em maior ou menor medida em muitos dos nossos ensaístas, tanto os clássicos quanto os mais recentes. Aqui o autor fará menção a nomes como o de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta.

Apesar de achar que algumas interpretações (positivas ou negativas) que Jessé faz desses clássicos são unilaterais (talvez devido à curta extensão dos capítulos; alguns deles lembram mais uma coluna de jornal popular), como se autores complexos como esses pudessem ter uma única interpretação consagrada, concordo em grande medida com a tese do “liberalismo” ou “culturalismo conservador” e da ausência de análise dos “imperativos institucionais” nas obras dos clássicos.

De modo bem sumário, para o leitor entender o percurso de Jessé, é preciso saber, inicialmente, que a sua leitura dos clássicos é feita do seguinte modo. Antes de Gilberto Freyre, a miscigenação brasileira (isto é, a própria ideia da nossa “morenidade”) era tida como o nosso maior defeito; só após a obra do sociólogo pernambucano é que essa característica passou a ser enaltecida. Sérgio Buarque se apropria desta ideia, mas a inverte, tornando-a, através do paradigma do “homem cordial”, uma característica defeituosa do brasileiro: um homem pré-moderno cheio de passionalidades e emoções que condicionam o seu agir, diferentemente do (idealizado) “homem protestante”, que seria ascético, racional e calculista, tipo visto normalmente (é claro) nos Estados Unidos. A consequência é que o “homem cordial” seria uma espécie de “aos amigos, o direito, aos inimigos, a lei”, isto é, um homem que mantém os amigos por perto e suas relações são pautadas em proximidades pessoais, relações de amizade; já o “protestante ascético” pautaria suas relações na meritocracia e no trato profissional (racional e calculista) dos problemas. Quando surge Raymundo Faoro, este autor toma a ideia do “homem cordial” e o generaliza ao introduzi-lo como paradigma (weberiano) do “estamento” brasileiro, que somado a ideia do “patrimonialismo” teria constituído a “elite” brasileira, que seria uma elite (apenas) estatal, mas não (é claro!) do mercado. Contemporaneamente, o antropólogo Roberto DaMatta, herdeiro legítimo do “liberalismo conservador” usa e abusa de toda a perspectiva construída pelos clássicos do ensaísmo brasileiro. Através da relação casa/rua ou pessoa/indivíduo, o autor tenta mostrar a inversão valorativa (ou culturalista) da realidade brasileira. Se a “casa” ou a “pessoa” são ambientes dominados por relações pessoais e afetivas e a “rua” ou o “indivíduo” são ambientes dominados pela racionalidade e impessoalidade das relações, vale dizer, tratamento igualitário, no Brasil, principalmente através do topoi “Você sabe com quem está falando?”, vigora uma gramática social que é pré-moderna e emotiva, ou seja, apesar do local ser público (rua/indivíduo), são as relações pessoais (típica da casa/pessoa) que prepondera.

O parágrafo foi grande, mas acho que consegui resumir como Jessé interpreta o “liberalismo conservador” e é sobre essas ideias descritas acima que ele vai realizar as mais duras críticas. A crítica geral é relativa à abstração dos paradigmas utilizados e ao a-historicismo das abordagens dos clássicos do ensaísmo brasileiro, o que, consequentemente, leva o autor a julgar falsas as suas premissas.

freyreEle inicia falando da obra de Gilberto Freyre, que foi o responsável, como eu já disse aqui, pela mudança de perspectiva em relação à miscigenação brasileira, que favoreceu a tese da democracia racial, da redução de todas as diferenças sociais e da pacífica convivência entre brancos e negros, metaforicamente “casa-grande e senzala”, seu maior livro. A crítica é que se, por um lado, esse pacto entre as “raças” escondeu a luta de classes que sempre ocorreu no Brasil, por outro, favoreceu a própria tendência varguista de fortalecimento da identidade nacional e construção simbólica de um Brasil unificado e portador de uma ideologia única. Além disso, Freyre criou (e, estranhamente, poucos o contestaram) a interpretação consagrada de um Brasil pré-moderno, cujas relações sociais são emotivas e pessoais; prova disso é o fato de que há uma unanimidade em atribuir aos brasileiros características como “calor humano”, “hospitalidade” e “cordialidade”. A crítica de Jessé é que depois de quase 300 anos de colonização e pelo menos 80 anos de construção do maior parque industrial da América Latina será que ainda somos passionais, cordiais e amadores, isto é, pré-modernos? E mais: se o comum do povo, a partir de uma sociologia espontânea, acha isso também, como o que é que os sociólogos referendam esta posição, sabendo-se, é claro, como nos ensinaram os pais da sociologia, que a sociologia surge justamente para mostrar, via de regra, que a sociologia espontânea (senso comum) deve ser criticada?

O próximo a ser abordado é Sérgio Buarque de Hollanda, que cria, a partir de Freyre, a Raízes_do_Brasilideia do brasileiro enquanto “homem cordial”, com a diferença de que se em Freyre essa era uma característica positiva, em Sérgio Buarque ela passou a ser o defeito de todo brasileiro. O grande problema, segundo Jessé, e eu concordo com isso, é que Buarque utiliza-se da matriz weberiana só aquilo que lhe interessa, isto é, se em Weber tanto o Estado quanto o mercado são ambivalentes (têm virtudes e defeitos), parece que em Buarque eles passam a ser (enviesadamente) unilaterais: o mercado detém as virtudes e o Estado os males. Jessé percebe essa má interpretação weberiana e pergunta: “Ora, se todos somos “cordiais”, porque apenas quando estamos no Estado desenvolvemos as consequências patológicas dessa nossa “herança maldita”? Por que o mercado, por exemplo, não é percebido do mesmo modo? E por que, inclusive, o mercado é, ao contrário, visto como a principal vítima da ação parasitária estatal?” (p. 34). A conclusão de Jessé é que Buarque é o filósofo do nosso liberalismo conservador, enquanto nosso historiador é Raymundo Faoro, que é o próximo que ele critica.

Os donos do poderEm contraposição à tese de Faoro de que o estamento brasileiro seria uma camada social que compartilha privilégios e relações e ele, o estamento, somado ao patrimonialismo, constitui uma elite estatal pré-moderna que impossibilita o livre mercado, símbolo de uma sociedade civil forte, autônoma e ativa, Jessé mostra (p. 65-67) como Faoro, além de desconsiderar a força das instituições nos comportamentos sociais, desconsidera que (i) de 1930/1980 o Brasil construiu um dos maiores parques industriais da América Latina, inserindo-se, à sua maneira, na modernidade; (ii) a noção de patrimonialismo é totalmente descontextualizada e se torna um sinônimo de qualquer intervenção estatal; (iii) não se sabe – porque Faoro não é claro – quem faz parte desse estamento, transformando-se, ao fim e ao cabo, numa mera abstração. E ele completa, em tom provocador: qual é o Estado que não é apropriado privadamente? E mais: a verdadeira questão é se o Estado vai ser apropriado por uma pequena minoria privilegiada ou pela maioria da população. Assim, conclui Jessé, o problema de Faoro é que o pressuposto liberal clássico faz com que ele considere sempre um “mal em si” o Estado funcionar como um estimulador e condutor da economia e, assim, há toda uma manipulação das noções weberianas para chegar a uma conclusão que é prévia: o mercado é virtuoso e o Estado é corrupto.

Por fim, Jessé faz críticas a um autor contemporâneo, que é consagradíssimo pela grandedamatta mídia. Estou falando do antropólogo Roberto DaMatta. A partir da contraposição pessoa/casa e indivíduo/rua, a crítica vai no sentido de que o autor cria uma compreensão da realidade brasileira tão abstrata que não é possível saber em que circunstâncias os princípios que regem o topoi pessoa/casa podem interferir e superar os princípios que regem o topoi indivíduo/rua. Ao que parece, o autor diz que a confusão de princípios é o verdadeiro “dilema brasileiro” e muitas vezes preponderam as relações pessoais (pessoa) sobre as relações impessoais (indivíduo). Isso vale tanto na análise do “jeitinho brasileiro” quanto do “Você sabe com quem está falando?”. O que fica claro, além do que já se disse anteriormente, é a ausência de análises institucionais. E esse é o seu maior problema.

Só por exercício intelectual, vamos supor que o DaMatta esteja certo, isto é, que haja esta confusão de paradigmas na gramática social brasileira. O que salta aos olhos é que a própria influência que ele diz ter, que é Gilberto Freyre, pensa completamente diferente dele. Eles partem de dois pontos comuns evidentes, que são a singularidade da sociedade brasileira e análise pouco habitual na nossa ciência social, que é a observação do cotidiano, de rituais etc. Só que as semelhanças acabam por aí. Enquanto DaMatta, a partir da tradição do liberalismo conservador, vai dizer que o Estado centralizado vai impedir o associativismo e a criação de uma sociedade civil forte, Freyre, na sua interpretação do Brasil colônia, vai dizer que foi justamente a descentralização administrativa que deu espaço para um patriarcalismo local que descambou em coronelismo, que surgiu apenas porque, ante a ausência do Estado, não haviam instituições de controle público acima da família.

Enfim. O que, segundo Jessé, podemos concluir do “liberalismo conservador”? Que o ódio ao Estado e o enaltecimento do mercado constitui, no fundo, um racismo de classe diante de qualquer intervenção do Estado na economia.

O blog sugere (e muito) a leitura deste livro.

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