Quase Jurista [1] – O nome do cargo

*Quase Jurista é uma série de ficção. 

A melhor coisa que podia acontecer a um jovem estudante de direito era trabalhar com Dr. Magister. Ele nunca escrevera um artigo acadêmico. Também não falava com a imprensa. Longe de ser um defeito, o mistério era o seu principal trunfo. Para os estudantes, isso era sinal de autoridade. Um professor já falecido da Faculdade dizia que juiz bom é aquele que só fala nos autos. Embora esta seja uma verdade incontestável, a nossa época está cheia de juízes midiáticos. Parece que hoje em dia os tribunais permitem que os juízes se afastem da verdade…

Mas Dr. Magister é um juiz das antigas. Talvez fosse amigo desse professor que morreu, embora não gostasse muito de professores. Sempre diz que quem não sabe fazer ensina. Dr. Magister não ensina, ele decide, o que é muito diferente. Inclusive, ninguém sabe qual é o seu entendimento sobre determinado tema antes de sair a sentença. Às vezes, nem mesmo os seus auxiliares. Dizem que nem ele mesmo sabe, que ele só define como vai decidir um caso quando está escrevendo a sentença. É uma espécie de transe que o domina. Afinal, sentença vem de sentire

Embora o Tribunal realize concurso para estagiários, Dr. Magister gosta mesmo é dos voluntários. Sempre diz que os estudantes devem querer trabalhar diretamente com ele, e não com uma instituição, mesmo que isso baixe o nível do seu pessoal. Formar uma equipe comprometida com ele é mais importante do que a tal meritocracia – ideia que só se aplica ao mundo corporativo, mas não ao serviço público. Se ele sabe de tudo, como bom juiz que é, precisa mais de corpos que de mentes. E Burócrata sabia disso.

Burócrata é um estudante de uma faculdade de quinta categoria, embora se ache acima da média. Nunca pensou em fazer justiça ou defender pessoas; nem de ler ele gosta, coisa que os seus professores dizem ser fundamental a um jurista. No fundo ele acha que nem os professores leem tanto quanto eles dizem e, se leem, são leituras muito teóricas; perfumarias, como se diz por aí. Mas como o direito é a carreira mais rentável do país, ele optou por se formar advogado e, com alguma sorte, trabalhar para o Estado. E enquanto a sorte não chegava pedira para ser estagiário de Dr. Magister. Queria aprender tudo que um advogado precisa com o homem que sabia mais que todos os advogados.

Certo dia, Dr. Postula, um velho advogado militante, chega ao balcão da secretaria e Burócrata vai atendê-lo.

-O senhor trabalha no gabinete do Dr. Magister? – perguntou o advogado, ainda aprumando a gravata.

-Sim.

-Como é o nome do senhor?

-Burócrata.

-Como?

-Bu-ró-cra-ta. Burócrata!

-É estrangeiro esse nome?

-Não, não. É que quando passamos no concurso do Tribunal este é o cargo que nós ocupamos. Aqui somos chamados pelo nome do cargo.

-Sério?

-Sério.

-E por que isso não acontece com juízes e promotores? Ninguém chama Promotor ou Juiz, mas sim Dr. Fulano, Dr. Sicrano…

-Mas isso é porque são altos cargos, doutor. Por exemplo: Otávio, da limpeza, sempre chamam de “menino da limpeza”, e Creuza, do café, sempre chamam de “mulher do café”. Nem me lembro porque sei o nome deles…

-Interessante.

-Dr. Magister diz que isso acontece porque sempre foi assim. Além disso, tá na constituição.

-Só por curiosidade: como é que vocês chamam os advogados?

-Ah, Doutor. É tanto nome feio que eu até tenho vergonha de falar…

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3 Comentários


  1. É um texto ficcional super interessante e que por outro lado, levou-me a uma reflexão básica no que diz respeito aos desafios de um estudante de Direito e de um jurista de jure e de facto. Os meus votos de agredecimento pelo seu trabalho que é de partilhar o seu saber sobre o Direito. Estamos juntos companheiro de jornada. Chamo-me Malunga David, escrevo-lhe apartir de Angola, África. Um forte abraço e até breve!

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