O que é o pragmatismo filosófico?

O pragmatismo surgiu na década de 1870, nos Estados Unidos, quando um grupo passou a se reunir em Cambridge para discutir filosofia. Participavam destes encontros William James, Charles Sanders Peirce e Oliver Holmes Jr., dentre outros, e se auto-intitulavam, ironicamente, “Clube Metafísico”[1]. A história é conhecida e não vale à pena esmiuçá-la; o importante é que foi das discussões desse grupo, em uma época em que a metafísica estava fora de moda (por isso, a ironia), que surgiu a base para o movimento pragmático, que era, antes de tudo, anti-metafísico, dentre outras razões porque via a si mesmo como uma filosofia da ação[2].

Analisando a etimologia da palavra – com o fim de entender a razão da afirmação feita no final do parágrafo anterior –, nota-se que pragmatismo vem da palavra “pragma”, que significa “ação”, “prática” ou “prático”[3]. É desta mesma palavra que nasce o vocábulo “praxis” (mais usada pelo marxismo), que também significa “prática”, “ação”, mas com um sentido diferente: enquanto a praxis possui um fim em si mesmo, a pragma consistiria na criação de um objeto externo ao indivíduo[4].

Segundo James, o objetivo de uma filosofia prática seria pôr fim em discussões que, caso contrário, se estenderiam interminavelmente[5]. De fato, ao contrário da metafísica e do seu viés contemplativo, apartado do mundo, as filosofias práticas caminham da realidade para a abstração e o seu objetivo é resolver os problemas da vida, e não do pensamento. Esta é a razão porque James defendia que o pragmatismo não se tratava nem de uma filosofia, na verdade ele era um método: um nome atual para classificar velhas formas de pensar[6].

O texto que inaugura o pragmatismo, entretanto, não é de James, mas de Charles Sanders Peirce, publicado no Popular Science Monthly, em 1878, e se chama Como tornar claras as nossas ideias. A preocupação de Peirce, neste texto, é que os conceitos filosóficos são, em geral, além de abstratos, pouco claros. Uma ideia clara, para Peirce, “é definida como uma que é apreendida de tal forma que será reconhecida onde quer que se encontre, de modo que nunca será confundida com outra”[7]. Isso é possível a partir da indagação sobre quais efeitos uma ideia pode ter, procedimento que se tornou conhecido como a “máxima pragmática”, nestes termos:

Considera quais os efeitos, que podem ter certos comportamentos práticos, que concebemos que o objeto da nossa concepção tem. A nossa concepção dos seus efeitos constitui o conjunto da nossa concepção sobre o objeto[8].

Vê-se, pela máxima pragmática e pelo que foi argumentado anteriormente, que a prática é fundamental para o pragmatismo, e, com isso, ele se opõe à filosofia da consciência e à metafísica, particularmente a uma característica peculiar, qual seja, a dualidade sujeito-objeto. A filosofia da consciência, mormente aquela resgatada por Descarte, tinha por objetivo investigar o melhor modo de representar a “essência das coisas” a partir da linguagem, onde o representante era o “sujeito-conhecedor” e o representado o “objeto-a-ser-conhecido”. Assim, o sujeito seria um “ente” apartado do objeto e o intuito da filosofia seria encontrar a melhor forma do primeiro conhecer o segundo. Esta tradição atinge o seu ápice em Kant[9], com a investigação acerca de como é possível que o homem atinja o conhecimento. Só que em Kant o problema é ainda mais complexo, pois ele não se restringe à preocupação de como um sujeito pode conhecer um objeto, mas, além disso, que ordem de objetos é possível conhecer e o quê dos objetos está sujeito ao conhecimento.

Para o pragmatismo, ao revés, não é possível separar o sujeito do objeto. Mais do que isso, o pragmatismo rejeita qualquer tipo de dualismo. A questão, pois, não é encontrar a melhor forma de descrever a realidade (racionalismo) ou viver a realidade de forma irrefletida (empirismo); é preciso fazer os dois. Como defende William James, “o que se precisa é de uma filosofia que não somente exercite os poderes da abstração intelectual, mas que estabeleça alguma conexão positiva com o mundo real de vidas humanas finitas”[10].

E o mundo real, para os pragmatistas, não pode ser outro que não o dos fatos; por isso é que, em certa medida, o pragmatismo é consequencialista, pois acredita que a validade de uma proposição não pode ser aferida “em si”, mas testada por suas consequências ou seus resultados[11]. Esta postura, como é evidente, é contrária a qualquer perspectiva ontológica, na medida em que esta é muito preocupada com o “em si”, a “natureza” ou a “essência” das coisas. Para o pragmatismo, é problemático atribuir à filosofia um papel desta natureza porque é a prática que vai apontar a verdade de uma categoria, e, por isso, o pensamento se torna insuficiente para dar conta do “mundo da vida” sem o auxílio da experiência.

É neste sentido que os pragmáticos têm relativa desconfiança dos variados mecanismos filosóficos, políticos, jurídicos etc. de justificação ética enquanto estes não demonstrarem a sua utilidade prática. Isto, porém, não significa que o pragmatismo compartilhe de um ceticismo radical, no estilo de Descarte[12]. O ceticismo pragmático é utilizado na medida necessária para combater o exagero do “racionalismo” e, ao mesmo tempo, fortalecer o “empirismo”, que é inerente às filosofias da práxis. Por isso é que Peirce se opunha ao cogito ergo sum descarteano, argumentando que não se pode partir da dúvida total; é preciso haver uma razão prática (isto é, humana) para desconfiar de uma proposição, e não meramente intelectiva. Veja:

Não podemos começar pela dúvida completa. Devemos começar com todos os preconceitos que realmente temos quando encetamos o estudo da filosofia. Estes preconceitos não devem ser afastados por uma máxima, pois são coisas a respeito das quais não nos ocorre que possam ser questionadas. Por conseguinte, este ceticismo inicial será mero auto-engano, e não dúvida real; e ninguém que siga o método cartesiano jamais ficará satisfeito enquanto não recuperar formalmente todas aquelas crenças que, formalmente, abandonou. […] No decorrer de seus estudos, é verdade, uma pessoa pode achar razões para duvidar daquilo em que começou acreditando: mas neste caso ela duvida porque tem uma razão positiva para tanto, e não em virtude de uma máxima cartesiana. Não podemos duvidar, filosoficamente, daquilo que não podemos duvidar em nossos corações[13].

Por tudo o que foi dito, vê-se que o pragmatismo é um movimento com características peculiares: (i) mede a verdade ou o significado de uma categoria a partir dos seus efeitos práticos, o que o insere no quadro geral das filosofias da práxis; (ii) combate os dualismos filosóficos – mormente a separação entre o sujeito e o objeto –, o que o aparta da filosofia da consciência; e (iii) partilha de um ceticismo “moderado”, na medida em que uma categoria deve ser apreciada por suas consequências práticas, e não por suas supostas características imanentes.

Referências

[1] DE WAAL, Cornelis. Sobre pragmatismo. Trad. Cassiano Terra Rodrigues. São Paulo: Edições Loyola, 2007, p. 17.

[2] FEITOSA, Enoque. Direito e humanismo nas obras de Marx no período de 1839-1845 (Dissertação de mestrado). Recife: UFPE, 2004, p. 154.

[3] JAMES, William. Segunda conferência: o que significa pragmatismo. In: ___. Pragmatismo, op. cit., p. 44.

[4] VASQUEZ, Adolfo Sanches. Filosofia da praxis. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 4

[5] JAMES, William. Segunda conferência: o que significa pragmatismo. In: ___. Pragmatismo, op. cit., p. 44.

[6] Ibidem, p. 44.

[7] PEIRCE, Charles Sanders. Como tornar claras as nossas ideias, op. cit., p. 2.

[8] Ibidem, p. 13.

[9]  Ver: KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. Alex Martins. São Paulo: Martin Claret, 2005.

[10] JAMES, William. Primeira conferência: o atual dilema da filosofia. In: ___. Pragmatismo, op. cit., p. 33.

[11] EISENBERG, José. Pragmatismo jurídico. In: BARRETO, Vicente de Paulo (coord.) Dicionário de filosofia do direito. São Leopoldo/Rio de Janeiro: Ed. Unisinos/Ed. Renovar, 2006, p. 656.

[12] Ver: DESCARTE, René. O discurso do método. São Paulo: Escala, 2005, s/d.

[13] PEIRCE, Charles Sanders. Algumas consequências de quatro incapacidades. In: ___. Semiótica. Trad. José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 2005, pp. 259-260.

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2 Comentários


  1. Professor gostei muito o texto publicado, sanando os meus questionamentos em relação ao pragmatismo, porém ainda tenho dúvidas em relação ao conceito de metafísica. Se for possível gostaria que este tema fosse tratado de modo completo como o de hoje em um futuro post.

    Obrigado!

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