Não faça JÚRI SIMULADO se você quer ser um BOM JURISTA

Olá, Jovem Jurista!

Você já ouviu falar de júri simulado?

Pois é. Na faculdade de direito todos gostam de júri simulado. Os professores gostam, a faculdade gosta, os alunos gostam, até a avó dos alunos gosta! kkk

Trata-se de um grande evento: os alunos se preparam durante semanas, reúnem-se várias vezes, usam beca…

Apesar de todos gostarem, eu considero uma ilusão. Mais uma das muitas que existem na Faculdade de Direito.

Neste post, eu quero lhe explicar por que eu considero uma ilusão.

No fundo, a grande questão é saber se você quer ser um jurista iludido, aprendendo habilidades que não têm muita relação com a prática jurídica, ou se você quer ser um jurista de verdade.

2018-11-17

Pois bem. O júri simulado é, seguramente, a principal metodologia ativa de aprendizagem utilizada nas faculdades de direito.

Se você ainda não sabe o que é, o júri simulado é um evento onde um professor escolhe determinado tema e os alunos ou grupos de alunos têm que defender posicionamentos distintos sobre o referido tema.

Eu vejo professores de várias disciplinas utilizando essa metodologia para discutir uma série de problemas tributários, ambientais, cíveis etc., quando nós sabemos que, no Brasil, o Tribunal do Júri é competente apenas para julgar crimes dolosos contra a vida.

Ou seja, quem irá trabalhar no Tribunal do Júri é uma pequena parcela de uma área restrita da advocacia: os advogados criminalistas.

Ou seja, a principal metodologia utilizada na faculdade só serviria para uma parcela reduzidíssima de profissionais.

É nesse momento que eu percebo como é ruim a influência dos filmes e séries de tribunais americanos. Assim como os atores americanos, os alunos dão muito mais ênfase à capacidade oratória e, digamos assim, ao poder de convencimento, muitas vezes utilizando meros “jogos de palavras”, do que à racionalidade jurídica em si, isto é, utilizando-se de um discurso técnico.

E qual é a ilusão que eu vejo no júri simulado?

Em primeiro lugar, pela minha experiência, mais de 90% do trabalho de um jurista não consiste em falar, mas sim em ler, compreender e escrever.

Preste atenção nisso, pois o que eu vou escrever é contra-intuitivo.

A maioria das pessoas considera que um bom advogado é aquele que fala bem e é capaz de se expressar.

Alguns até atribuem a qualidade de um advogado àquele profissional que é capaz de fazer um mero “jogo de palavras” e, assim, convencer alguém, como vemos nos filmes de tribunal americanos.

Isto é, para os leigos o advogado é uma espécie de ser esotérico, uma espécie de mágico que consegue descobrir uma brecha na lei e salvar um caso que estava perdido.

Mas, vamos pensar um pouquinho…

Quem o advogado deve convencer em um processo judicial? Em geral, um juiz.

E quem é um juiz? Para ser juiz no Brasil é preciso ser bacharel em direito, o que leva no mínimo 5 anos na graduação. Depois, ele tem que ter ao menos três anos de atividade jurídica. Mas a verdade é que os atuais concursos da magistratura estão tão difíceis que só conseguem ser aprovados em um concurso de juiz aqueles que estudam 4, 5, 6 anos depois de formados na graduação.

Isso significa que, contando com a fase de treinamento pós-concurso, um juiz novato é, em média, um profissional que já estuda direito há pelo menos 10 anos e, pela exigência do concurso, é um profissional altamente qualificado.

Assim, não seria muita ilusão achar que meros “jogos de palavras” iriam fazer com que seja possível um advogado reverter um caso “perdido” para o seu cliente?

E mais. Hoje, o direito é extremamente técnico, razão pela qual o bom advogado não é aquele que sabe falar bem, mas sim o profissional que possui as habilidades de leitura, compreensão e escrita.

Sabe porquê?

O advogado tem que ler a legislação, os códigos, bem como analisar documentos e provas. Em geral, códigos, legislação, documentos e provas são manifestados de forma escrita. Ele tem que ter, portanto, as habilidades de leitura e compreensão porque, em seguida, terá que fazer uma petição considerando as informações contidas na legislação, nos códigos, nos documentos e nas provas.

Talvez agora você entenda porque eu sou contra júri simulado.

O júri simulado procura desenvolver uma habilidade que não é imprescindível para advogados, pois se você não irá trabalhar no Tribunal do Júri, a maioria dos advogados só precisa ter a capacidade de leitura, compreensão e escrita.

Mas se você é um advogado que, além dessas habilidades, tem uma boa oratória, certamente isso é bom para você. É melhor ter mais habilidades do que menos habilidades.

Pois bem. O objetivo deste post foi apenas chamar a sua atenção para, inicialmente, trabalhar as habilidades essenciais (ler, compreender e escrever) para, só depois, trabalhar as supérfluas (falar).

É isso. Espero que você tenha gostado deste post. Até uma próxima.

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